O lobo em pele de cordeiro
- mundano

- 3 de abr. de 2023
- 3 min de leitura
Atualizado: 4 de abr. de 2023
No cotidiano da quebrada há vários aliados e inimigos, e dentre esses, há um que consegue ser os dois, ou pelo menos se fingir de um, sendo o outro. O famoso “lobo em pele de cordeiro”.
Não estou falando dos parceiros e dos invejosos de plantão. Estou falando de algo que está nas mesas de plástico dos bares, nas geladeiras do povo e, pior ainda, na mão de crianças e adolescentes. A troca de ideia hoje vai ser sobre ele mesmo: o álcool.
Todo mundo ama aquela dose no final de semana, se for perto do dia 05 já desce um combinho midiático que vai aparecer no Instagram de todos os integrantes do bonde. Todo mundo ama aquela cervejinha no final de um dia cansativo ou num churrascão de família, ambiente esse que parece ter sido criado justamente pra se tomar a famosa gelada.
Até aí tudo bem, mas existe o outro lado da moeda.
Em sua música “Muita fé” o MC Menor da VG diz:

“Depois que falaram
que a porta de entrada
das drogas é o baseado,
licença, eu discordo.
É a porra do álcool”
Essa afirmação se mostra cada dia mais real nas periferias. O primeiro contato com o álcool acontece com maior frequência entre os 13 e 17 anos (levantamento de 2019 pelo IBGE), porém uma pesquisa feita por alunos da UNIFAP com cerca de 200 crianças de 6 a 12 anos de uma escola da periferia de São Paulo mostrou que 9% já haviam consumido bebida alcoólica alguma vez na vida. Dentre essas, 52,9% disseram ter consumido pela primeira vez com os pais ou familiares em momentos festivos. 23,5% relataram terem feito o primeiro uso escondido dos pais, e sozinhos.
Isso é um alerta grave para um país que tem o álcool como importante convidado em festas ou, pior do que isso, aliado em momentos tristes, refúgio das neuroses e dilemas do cotidiano periférico. Principalmente durante e após a pandemia, momento em que a saúde mental de jovens e adultos foi impactada pela depressão, ansiedade e diversos outros transtornos provocados e intensificados pelo isolamento e o medo.

A glamourização do consumo do álcool é perigosa, afinal hoje em dia poder pagar um combo de whisky com energético (bomba caseira para a saúde) é tão ostentação quanto ter uma corrente de ouro e um relógio caro no pulso.
Mas vamos lá, então quer dizer que a pessoa que trampa a semana toda e no final dela vai se divertir, está errada?
Jamais. O erro não está aí, o buraco, como sempre, é mais embaixo. As quebradas brasileiras carecem de opções de lazer para crianças e adolescentes, isso funciona como um empurrão para jovens terem contato cedo com o álcool, o enxergando como mais uma forma de lazer.
Porém, nossa mente continua em formação até cerca de 24 anos de idade, inserir o álcool numa rotina de um jovem que ainda não está “de cabeça pronta” é prejudicial e perigoso para o desenvolvimento dele.
Quando um jovem como esse se depara mais à frente com as responsabilidades e neuroses da vida, o álcool poderá um refúgio acolhedor. E como todo lobo em pele de cordeiro age, o que aos 17 anos era apenas um “combo pro lazer de fim de semana” se torna a “garrafa de 51 de todo dia após o trabalho”.
O álcool é uma droga silenciosa, não porque o estrago é pequeno (pois sabemos que não é), mas sim porque o consumo se tornou tão cultural que parece ser até inevitável.
A solução para o alcoolismo nas periferias não vai vir do dia para a noite, mas o debate e a conscientização em torno do assunto é o primeiro passo para daqui um tempo existir mais áreas de lazer e esporte do que adegas nas quebradas.
Fique atento ao seu redor, aos familiares menores de idade e a forma como normalizamos a presença do álcool na nossa rotina. Vamos nos conscientizar e passar adiante a informação e caso você precise de ajuda ou acha que abusa no consumo do álcool, procure o Centro de Atenção Psicossocial (CAPS) mais próximo da sua casa.
Vai beber aquele combo no sabadão que tá “mó lua” e tudo mais? Daora. Só não esquece de beber muita água também e principalmente: se beber não dirija. Disciplina. Vamo que vamo.



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